Diferente de tendência mundial, qualidade do ar piorou na região de Campinas durante pandemia
Clima
Diferente de tendência mundial, qualidade do ar piorou na região de Campinas durante pandemia
Estudo do Cepagri indica que concentração de poluentes aumentou em decorrência das queimadas e do clima seco

Os impactos do isolamento e distanciamento social sobre a qualidade do ar, conforme apontam pesquisas em andamento no mundo e no Brasil, mostram que a menor circulação de veículos emissores de poluentes no período de pandemia trouxe benefícios na diminuição da poluição. Mas, diferente dessa tendência, a qualidade do ar na região de Campinas sofreu um agravamento, com um aumento da concentração de poluentes, conforme estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp. As consequências, avaliam, são preocupantes ambientalmente e na medida em que podem contribuir para fragilizar a saúde da população.

Os pesquisadores verificaram a qualidade do ar dos municípios de Americana, Campinas, Limeira, Paulínia e Piracicaba. Diferente do que esperavam, perceberam que houve um aumento da concentração de poluentes significativo no período entre março e julho. Para entender por que isso ocorreu, analisaram as condições climáticas. O período de outono e o inverno, como observaram, é o mais seco desde que 1990, quando o Cepagri iniciou as medições, com um volume de chuvas abaixo do esperado, o que dificulta a remoção da poluição.

No entanto, somente as condições climáticas não explicariam o aumento na concentração de poluentes. Por isso, focaram-se nos casos de queimadas e perceberam que, além do baixo volume de chuvas e da umidade relativa do ar, também houve um aumento destes incêndios. Utilizando dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foram detectados 147 focos de queimadas somente dentro dos limites de Campinas, entre 24 de março e 31 de julho. Em decorrência disso, mais elementos poluentes são lançados no ar.

“Verificamos as condições meteorológicas e foi um período que teve uma estiagem muito forte, especialmente do mês de abril, o que contribui para a concentração dos poluentes porque um dos mecanismos de diminuição da poluição atmosférica é a chuva, através do que a gente chama de deposição úmida. Mas isso era insuficiente para explicar o aumento na poluição e resolvemos observar sob a ótica das queimadas. Vimos que de fato houve um número muito grande de queimadas, maior que o dos últimos anos”, avalia Bruno Bainy, meteorologista do Cepagri que encabeçou o estudo.

Ele também aponta que os valores de concentração de poluentes na região de Campinas, que envolveu as cidades de Limeira, Piracicaba, Americana, ultrapassaram em alguns casos os valores limites indicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). "Um exemplo marcante de quando a poluição superou esses limiares da OMS foi no dia 1º de maio, quando o material particulado inalável fino atingiu uma concentração média de 37 microgramas por metro cúbico- 50% acima do limite". Para este material, a OMS estipula uma concentração média, para 24 horas, de 25 microgramas por metro cúbico.

Com a flexibilização da quarentena, a partir da entrada da região na fase amarela, Bruno aponta preocupação com uma piora do quadro, já que haverá um aumento dos veículos emissores de poluentes nas ruas.


Qualidade do ar e saúde

A péssima qualidade do ar traz um impacto negativo sobre a saúde das pessoas, o que é mais preocupante num período de circulação de um vírus com potencial de afetar o sistema respiratório. “Há a questão ambiental, mas também a questão da saúde. É ainda mais preocupante aplicado ao contexto da pandemia de uma doença que em alguns casos causa a Síndrome Respiratória Aguda Grave, pneumonias e deficiência nos pulmões”, afirma o pesquisador.

Estudos que relacionam a gravidade e a mortalidade da Covid-19 à condição do ar, aponta, vêm sendo realizados em países como China, Índia, Itália. De forma preliminar, eles sinalizam um paralelo entre formas graves da doença e maior mortalidade e regiões com maiores índices de poluição. “Ainda não temos como mensurar o quanto esses índices de poluição elevados podem ter afetado em casos de agravamento e mortalidade pela Covid-19, mas temos estudos que dizem que muito provavelmente tivemos mais mortes e mais casos graves de Covid-19 em função das condições ambientais de poluição”, diz.

Ele cita como exemplo uma pesquisa realizada no norte da Itália, em áreas com maior concentração de dióxido de nitrogênio, o que segundo o autor potencializou casos graves da doença. Na China, ainda, estudos mostram que há um aumento de mortalidade nas regiões onde que a poluição por material particulado (substância poluente) é mais elevada.

Urgência de mudar hábitos

A pesquisadora do Cepagri, Ana Maria Heuminski de Ávila, que também conduziu o estudo, indica que, para mudar essa situação, é preciso mudar a cultura da limpeza de terrenos com fogo, assim como o hábito da queima de lixo. “Há um agravamento da qualidade do ar e da saúde pela questão cultural de colocar fogo para limpeza de terreno. É uma forma barata e simples, mas que tem todo um impacto na saúde e que as pessoas, por desconhecimento muitas vezes, acabam mantendo”.

As condições climáticas, explica, estão favorecendo o espalhamento do fogo e, assim, esse hábito torna-se ainda mais perigoso. Mas em qualquer condição, diz Ana, o fogo provoca fumaça e polui o ar, e é preciso mudar esse hábito. “Precisamos alertar nesse ponto da questão cultural, porque há uma exposição das pessoas saindo e circulando expostas a péssima qualidade do ar”, diz.

Hábitos como jogar pontas de cigarro no chão também precisam ser mudados, já que, além de causar poluição, podem iniciar fogo, como se observa em beiras de rodovias.

Além dos pesquisadores do Cepagri Bruno Bainy e Ana Ávila, também participou do estudo a professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp Ilma Aparecida Paschoal.

Fonte: Portal da Unicamp

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