Prezado Sr. Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

Dr. Franciso Graziano Neto

 

 

Como Chefe da Embrapa Informática Agropecuária e na qualidade de leitor atento e de cidadão compromissado, dirijo-me a V.Sa. para prestar-lhe algumas informações que, espero, possam permitir-lhe a oportunidade de corrigir as falhas contidas em seu artigo  intitulado "Café otimista", publicado no  Jornal "O Estado de S.Paulo" em 05/06/2007, e que fazem referências a "um estudo produzido por  meteorologistas da Unicamp, em conjunto com a Embrapa/ Informática". Saliento que considero fundamental

o papel da imprensa na difusão de informações e como fórum de discussão de idéias e opiniões, mas esse papel deve ser assumido com responsabilidade, pois quando a mídia divulga informações e opiniões mentirosas e, ou levianas, presta um desserviço  a sociedade incompatível com suas funções.

 

Comecemos com a citação do livro "Namorando a Terra", de René Dubos.

Talvez V.Sa., envolvido em tantos afazeres que marcam Vossa vida profissional, o tenha lido de forma rápida ou esquecido o que ele contém. Com efeito, trata-se de um livro muito bonito, publicado em 1980, por um brilhante microbiologista americano de origem francesa, falecido em 1982. De sua leitura e da leitura de outras obras de René Dubos, o leitor é instigado a ponderar fundamentalmente sobre a nossa postura diante do ambiente, sobre a nossa responsabilidade na garantia de ambientes ecologicamente equilibrados, esteticamente satisfatórios e economicamente recompensadores. É com essa convicção que Dubos nos convidava a namorar a Terra. No entanto, ao afirmar que "o público se cansa rapidamente de escutar apenas histórias de desastres, é necessário, portanto, repensar de uma maneira mais positiva" (In The Despairing optimist), Dubos não estava convidando pesquisadores, professores, políticos, formadores de opinião e outros a manipularem afirmações e distorcer fatos apenas para deixar o público com impressões positivas sobre o futuro. Ao contrário, Dubos trabalhava com a ciência e com fatos científicos para dar sustentação a sua visão otimista do mundo.

 

E o que nós da Embrapa Informática fazemos, bem como do Cepagri/Unicamp e demais instituições associadas,  Dr. Graziano, é ciência e não achismo.

Achismo faz quem ouve falar de um assunto, não tenta entendê-lo, não lê e não se informa e ainda se exime de responsabilidades afirmando que o comunicador fica espremido entre posições antagônicas.  O papel de um comunicador que possui formação técnico-científica inquestionável e visibilidade política e técnica é saber exatamente o que está assinando.

Em nosso país, Dr. Graziano, muitos erros têm sido cometidos porque pessoas que ocupam posições estratégicas afirmam que afinal não sabiam de nada quando se descobre os delitos, distorções e mentiras que sustentaram com suas assinaturas e atos.

 

O artigo que o senhor menciona que faz "assustadoras previsões" tem por objetivo principal avaliar os possíveis impactos que condições climáticas distintas da atual poderão provocar na aptidão climática das principais culturas agrícolas do país, considerando a tecnologia atual. Como a aptidão climática atual das principais culturas agrícolas é cada vez melhor definida e conhecida, e os modelos de previsão de tempo e clima têm evoluído significativamente, os resultados obtidos nas simulações de impacto permitem discutir de forma mais objetiva um assunto tão importante para o agronegócio nacional como o das mudanças climáticas. E citando mais uma vez René Dubos, "tendência não é destino". Ao estimar os possíveis impactos pode-se definir ações mitigadoras. Discursos e palavras bonitas não resolvem os problemas que aqueles que vivem da atividade agrícola enfrentam no dia-a-dia. E certamente o senhor sabe disso. Como sabe também que uma mentira repetida muitas vezes só se torna verdade para os incautos e os despreparados.

No nosso trabalho, sabemos que pesquisa se faz com método, com observações e análises rigorosas e com responsabilidade, além de conhecimento obviamente.

Tudo isso é constantemente avaliado seja nos comitês de avaliações dos artigos que publicamos seja por comitês que avaliam os financiamentos destinados a nossas pesquisas. E o que afirmamos no referido artigo que V.Sa. de forma superficial ridiculariza e denigre é:

 

 

1) Baseado em estudos e cenários definidos por mais de 2000 cientistas de todo o mundo e que contribuíram para elaborar os relatórios do IPCC de 2001 e de 2007;

 

 

2)Baseado em metodologia de zoneamento de risco climático definido pelo eminente pesquisador do IAC, Dr. Ângelo Paes de Camargo. Essa metodologia é adotada nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia.

 

 

3)Baseada em resultados de simulações amplamente conhecidos no Brasil e que já fazem parte de política pública adotada pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento desde do ano de 1995 com o mais absoluto sucesso.

 

 

4)Fundamentada em análises espaço-temporal e espacialização de dados agrometeorológicos, desenvolvidas pelo INPE, EMBRAPA e UNICAMP e amplamente utilizada no meio científico nacional para estudos de zoneamento agrícola.

Tal metodologia é que permite mapear os impactos do aumento da temperatura no zoneamento da cultura do café no Estado de São Paulo e afirmar que com aumento de três graus, a região da MOGIANA continuará produzindo café.

Qualquer estudante de graduação que saiba interpretar um mapa pode ver isso.

Quem diz o contrário no mínimo não leu nosso trabalho, disponível ao público desde o ano de 2002.

 

Enfim, Dr. Graziano, num estado democrático opiniões divergentes devem sim ser confrontadas e discutidas, e existem inúmeros fóruns para isso, inclusive a grande imprensa. Mas a discussão deve ser pautada pela ética e se apoiar em fatos e/ou idéias consistentes. Nós agroclimatologistas fazemos sim Agronomia e temos clareza que esta é uma área de conhecimento bastante aplicada. Não esquecer que a Agroclimatologia é uma das diferentes áreas de competência da Engenharia Agronômica, muito bem definida no CNPq.

Portanto, face aos inúmeros equívocos que detectamos em seu artigo e visando preservar, não apenas pessoas - porque essas passam - mas instituições sólidas e respeitadas no cenário nacional e internacional, como a Embrapa, é que apresento esses esclarecimentos e tenho certeza que sendo uma pessoa de bom senso que é, numa oportunidade qualquer corrigirá os erros,  deixando evidente que atitudes  como essas  é que caracterizam os grandes homens públicos.

 

E mais uma vez, reiteramos que nossas atividades são claras e com ética profissional. Estamos ao inteiro dispor de V. Excelência para, quando assim o desejar, fazer uma visita aos nossos laboratórios e discutir nosso trabalho de forma aberta e objetiva. Nossas informações e dados são e sempre foram disponíveis a todos os interessados. Infelizmente como seu artigo foi publicado num grande veículo de divulgação nacional ao qual não tenho ainda acesso, enviarei essa resposta àqueles que nos convidaram a discutir o assunto analisando conjuntamente as oportunidades e ameaças frente aos grandes desafios ambientais que temos pela frente, a saber:

 

- Comissão de Agricultura da Câmara dos deputados;

- Comissão Mista da Câmara e do Senado sobre Mudanças Climáticas Globais;

- Academia Brasileira de Ciência;

- Secretaria do Meio Ambiente do Estado de Pernambuco;

- Secretaria de Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina;

- INPE, EPAGRI, ESALQ-USP, Universidade Federal de Viçosa dentre outros.

 

 

 

Atenciosamente

 

 

 

Eduardo Delgado Assad

Pesquisador da Embrapa

Chefe Geral da Embrapa Informática Agropecuária.