Unicamp, 05 de Junho de 2007.

 

Excelentíssimo Dr. Xico Graziano

Secretário de Estado do Meio Ambiente.

 

Senhor Secretário

 

Com muita surpresa tomamos conhecimento de sua reportagem no Estado de São Paulo de hoje, 05 de Junho de 2007. Principalmente considerando a reportagem anterior em que V. Excelência, em 30 de Janeiro de 2007, escreveu "Calor Vegetal" no mesmo jornal, onde se lia...

 

"Dizem que este ano será o mais quente da História. A Embrapa está fazendo projeções sobre a influência do aquecimento global na agricultura brasileira. Em estudo conjunto com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), válido para cinco grandes culturas - café, arroz, feijão, milho e soja -, concluem os cientistas que a perda de área nessas atividades poderá atingir 50% se a temperatura média subir 5,8 graus Celsius, o que é previsto para daqui a 50 ou 100 anos. Nesse cenário, a cultura do café praticamente desapareceria de São Paulo e de Minas Gerais, migrando para o Sul do País, à procura de clima mais ameno. Adeus, geada.


Das duas, uma: ou se enfrenta pra valer o aquecimento global, reduzindo fortemente as emissões de carbono, ou muita pesquisa terá de ser realizada para adaptar as plantas cultivadas à progressiva elevação da temperatura. Dá-lhe engenharia genética.".

 

Nenhum comentário a respeito do nosso trabalho na ocasião. E até entendemos, na época, que se tratava de algum elogio.

 

Agora, para nossa surpresa, V. Excelência escreve hoje:

 

"Na esteira dessas assustadoras previsões, divulgou-se no Brasil um estudo produzido por meteorologistas da Unicamp, em conjunto com a Embrapa Informática, mostrando o estrago que o aquecimento global deve provocar na agricultura. A cafeicultura paulista seria inviabilizada com um aquecimento de 3 graus Celsius, suposto para 2040. Os produtores ficaram apavorados.".

 

E mais:

 

“Calma lá. Pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), liderados pelo maior especialista em café do País, Luiz Carlos Fazuoli, contestaram tal estudo. Em recente artigo, intitulado Aquecimento global, mudanças climáticas e a cafeicultura paulista, argumentam que aspectos primordiais foram totalmente ignorados por climatologistas que, intempestivamente, se meteram a entender de agronomia aplicada.".

 

Caro Senhor Secretário:

 

1.) Após tanta filosofia no referido artigo, gostaria de sugerir a V. Excia que, por favor, verifique meu CV na plataforma Lattes do CNPq e depois faça os comentários sobre pesquisas e pesquisadores. Pois se existe algo de que me orgulho é da minha produção técnica e científica. Além, evidentemente, da profissão de agrônomo formado pela ESALQ. Por favor, compare o nível de excelência com o dos citados no artigo.

 

2.) Iniciei minha vida no IAC e, com menos de seis anos de pesquisas, coordenei projetos de zoneamento agrícola e, principalmente de café no Brasil, financiado pelo IBC, visitando praticamente todos os estados com potencial de produção, sob a orientação de pesquisadores de renome como Ângelo Paes de Camargo, Altino Ortolani, Alfredo Kupper, José Maria Jorge Sebastião e Jorge Chiarini. Além de uma orientação pessoal do Dr. Alcides Carvalho. Foi com eles que formei minha base de pesquisa. Então senhor Secretário, fica difícil aceitar suas colocações de que "achismos, etc..." são as bases de nosso trabalho.

 

3.) Convidaria V. Excelência a ler nossos trabalhos publicados no Brasil e no exterior, antes de emitir qualquer parecer a respeito. Jamais falamos que com 3°C o Estado perderia sua produção. Assim como jamais falamos que entre 2004/05 e 2006/07 a área com café no Estado passará de 237 para 233 mil há, conforme explicitado no artigo inserido na pagina do IAC na internet. Essa informação, como pode ser facilmente verificada, foi proveniente da própria Secretaria da Agricultura. Mas acabou sendo creditada à Unicamp e Embrapa.

 

4.) Senhor Secretário. É difícil aceitar que algumas pessoas desrespeitem a inteligência alheia. Qualquer estudante nosso sabe que a cada 100 metros que se eleva em altitude a temperatura baixa 0,6°C. Portanto café a 800 metros tem condições mais amenas do que a 500 metros. Elementar. Nós também pensamos nisso ao escrevermos os trabalhos.

 

4.) O primeiro trabalho sobre o assunto foi publicado na revista eletrônica da SBPC.

http://comciencia.br/reportagens/clima/clima16.htm. Por favor, senhor Secretário, verifique que um dos autores pertence ao IAC e, portanto, endossou os resultados com a cultura cafeeira no Estado.

 

Assim senhor Secretário, antes de emitir tais opiniões, apreciaria imensamente se V. Excelência avaliasse fria e detalhadamente o assunto, ouvindo os dois lados e, usando suas próprias metáforas, não apenas optando pelos 50% de probabilidade de estar ouvindo a parcela verdadeira. Isso não é ser otimista ou pessimista. É ser pragmático apenas.

 

Nossas atividades são claras e com ética profissional. Foi assim que aprendemos com nossos pais e mestres. Por isso mesmo estamos ao inteiro dispor de V. Excelência para, a qualquer momento, fazer uma visita aos nossos laboratórios e discutir nosso trabalho de forma aberta e objetiva. Nossas informações e dados são e sempre foram disponíveis a todos os interessados.

 

 

Atenciosamente

 

 

Prof. Dr. Hilton Silveira Pinto

Diretor Associado

Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura

Instituto de Biologia

Universidade Estadual de Campinas

Pesquisador 1A CNPq.

 

(Atualização: 13/06/2007)