Campinas, 6 de junho de 2007

 

 

Exmo.Sr.

Francisco Graziano Neto

Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

 

 

Prezado Sr.,

 

            Na condição de Diretor do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) venho, através desta, prestar-lhe algumas informações visando esclarecer pontos que foram levantados por V.Exa no artigo intitulado “Café otimista”, publicado no Jornal “O Estado de S.Paulo” em 05/06/2007, e que fazem referências a trabalhos realizados por profissionais do Cepagri/Unicamp em conjunto com a Embrapa Informática.

            O referido “estudo produzido por meteorologistas da Unicamp, em conjunto com a Embrapa Informática” é, na verdade, um conjunto de atividades desenvolvidas por uma Rede de Pesquisas em Zoneamento Agrícola e Mudanças Climáticas existente, efetivamente, desde 1995 e que conta com, pelo menos, 60 pesquisadores doutores vinculados a várias instituições federais e estaduais de pesquisa do Brasil. Trata-se de uma Rede bastante ativa, premiada várias vezes e financiada através de projetos de pesquisa submetidos ao sistema de avaliação por pares de várias agências de fomento, tais como, CNPq, Embrapa, FINEP e MAPA. Todos os trabalhos realizados são exaustivamente discutidos na Rede, desde a proposta inicial até a divulgação dos resultados finais. Esta divulgação tem sido feita, principalmente, em eventos científicos no Brasil e no exterior e em periódicos científicos de circulação nacional e internacional.

Os resultados específicos para a cultura do café, tema do artigo de V. Exa, foram publicados na forma de artigos científicos, em periódicos de circulação nacional e internacional, tais como: Pesquisa Agropecuária Brasileira – PAB (em 2004), Meteorological Applications (em 2006) e Comciência (em 2002). Além disso, foram apresentados em vários eventos técnicos e científicos realizados no Brasil e no exterior, perante as comunidades científicas nacional e internacional, inclusive na Organização Meteorológica Mundial (WMO), em novembro de 2004, na cidade de Genebra. Destaca-se que os artigos submetidos aos periódicos científicos são, normalmente, avaliados por, pelo menos, dois especialistas nas áreas de abrangência do trabalho, que são mantidos anônimos pelos editores para aumento do rigor e da isenção da análise realizada. Salienta-se que alguns dos artigos publicados contam com co-autoria de pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

É importante ressaltar que os primeiros resultados a respeito do café foram publicados há seis anos, no XII Congresso Brasileiro de Agrometeorologia (CBAGRO), realizado de 03 a 06 de julho de 2001, na cidade de Fortaleza. Este é o principal evento científico na área de agrometeorologia no Brasil e, sem dúvida, um dos principais do Mundo. O trabalho apresentado no CBAGRO foi motivado pelo relatório do IPCC publicado em 2001, anterior, portanto, ao de 2007, que está recebendo um destaque maior da imprensa e da população, de forma geral. A base desse trabalho foi o Zoneamento Agrícola do Café no Brasil, realizado em 1977, atualizado e revisado em 2000 e publicado em 2001 na Revista Brasileira de Agrometeorologia, em Número Especial sobre o Zoneamento Agrícola do Brasil. Ressalta-se que este trabalho de atualização e revisão do Zoneamento do Café foi financiado pelo Funcafé/Embrapa. A definição dos parâmetros utilizados no trabalho foi feita através de reuniões realizadas durante quase dois anos, nas dependências do IAC, com a participação de especialistas das áreas de fisiologia vegetal, climatologia, estatística e geoprocessamento dos Estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Goiás, inclusive dos autores do referido artigo do IAC citado no texto de V. Exa.

O objetivo principal deste tipo de trabalho é avaliar os possíveis impactos que condições climáticas distintas da atual poderão provocar na aptidão das principais culturas agrícolas do país, considerando a tecnologia atual. Ou seja, não é “deverão provocar”, como aparece no texto em “mostrando o estrago que o aquecimento global deve provocar na agricultura”, mas “poderão provocar”. Como a aptidão climática atual das principais culturas agrícolas é cada vez melhor definida e conhecida, e os modelos de previsão de tempo e clima têm evoluído significativamente, os resultados obtidos nas simulações de impacto permitem discutir de forma mais objetiva um assunto tão importante para o agronegócio nacional como o das mudanças climáticas. O estabelecimento de diagnósticos é parte essencial da atividade científica, principalmente na forma e com o rigor que está sendo feito pelo Cepagri/Unicamp, Embrapa Informática e Instituições parceiras, utilizando a melhor tecnologia disponível no momento. Mais trabalhos, como os que já foram realizados, necessitam ser conduzidos, pois, apesar da incerteza envolvida nas previsões das mudanças climáticas, um setor tão importante para o país, como é o do agronegócio, não pode ficar desprevenido e ser surpreendido por situações futuras que lhe sejam desfavoráveis e irreversíveis.

Os resultados obtidos são, na verdade, um incentivo à comunidade científica, pois indicam a necessidade de recursos para o desenvolvimento de tecnologias destinadas à mitigação e adaptação às mudanças climáticas, caso elas ocorram ou não. O investimento não será desperdiçado caso as mudanças não ocorram, pois a tecnologia gerada poderá ser utilizada em regiões que atualmente não são aptas para determinadas culturas por razões climáticas. Tanto que a Embrapa, por exemplo, contratou, no final de 2006, 14 pesquisadores especificamente para a área de mudanças climáticas e planeja contratar outros nos próximos anos. Além disso, algumas agências de fomento já estão se preparando para lançar editais de financiamento a projetos na área de mudanças climáticas.

Um dos grandes desafios dessa área, e que tem dificultado o seu rápido desenvolvimento, é que ela é eminentemente multi-disciplinar. Isto irá requerer uma nova forma de agir dos profissionais, das agências de fomento e dos tomadores de decisões que estão, em sua maior parte, acostumados a trabalhar de forma segmentada e setorial. Além disso, as mudanças climáticas e seus impactos são, ainda, eventos abstratos para muitos, pois referem-se a fatos que poderão ocorrer além do horizonte normal em que estão acostumados a planejar e trabalhar, dificultando o entendimento do problema e a proposição de soluções.

Com relação à contestação feita por pesquisadores do IAC, citada no texto de V. Exa, encontrei apenas uma cópia disponível na página internet do referido instituto, sem nenhuma referência ao meio científico de publicação do mesmo. Além disso, estranha-nos que tal contestação só tenha sido feita seis anos após a divulgação dos primeiros resultados, através de uma página na internet, por pesquisadores que conhecem os trabalhos realizados, ou deveriam conhecer, pois os resultados estão à disposição da comunidade científica há vários anos, e, inclusive, participaram de algumas etapas dos mesmos e, com os quais, temos bom relacionamento pessoal e profissional. A ciência, como bem observou V.Exa no texto, tem suas regras e métodos que devem ser seguidos, independentemente da importância do assunto e da experiência e notoriedade dos autores de um determinado trabalho científico. É exatamente isso que estamos fazendo ao submetermos os projetos e os trabalhos realizados à avaliação por pares, apesar da experiência comprovada da equipe de trabalho, conforme pode ser consultada na plataforma Lattes do CNPq.

Estamos à disposição para todos e quaisquer esclarecimentos que forem necessários sobre os trabalhos realizados para a cultura do café e para as demais culturas já avaliadas.

 

Atenciosamente,

 

                        Jurandir Zullo Junior

                        Diretor – Cepagri/Unicamp